Rota dos Azeites: Alentejo, uma cultura milenar 1


Muito mais do que um simples alimento ou sustento, o néctar das oliveiras é parte integrante da vida nesta região. Por entre olivais centenários e lagares de última geração, podemos descobri-lo num agradável passeio.

Entre as fileiras de oliveiras novas, alinhadas geometricamente, avistam-se, aqui e acolá, altos zambujeiros centenários. Estamos na Quinta de São Vicente, nos arredores de Ferreira do Alentejo, e a imagem das velhas oliveiras bravas, algumas com mais de quinhentos anos, neste olival de última geração resume com perfeição o que tem sido a relação do Alentejo com a olivicultura ao longo dos últimos dois mil anos. O azeite está desde sempre presente nesta propriedade, onde a família Passanha o produz desde o século XVIII. “A herdade conta com três gerações de lagares: o de varas, de origem romana, um a vapor, em funcionamento nos séculos XIX e XX, e, mais recentemente, um de força centrífuga”, sublinha o atual proprietário João Passanha, que construiu um novo e moderno lagar e apostou na produção de um azeite de excelência. A quinta retomou a produção em 2008 e logo ganhou, passados dois anos, a medalha de ouro dos prémios Mario Solinas (considerado o óscar do setor), na categoria Frutado Maduro com o azeite D.Diogo, um de suas marcas premium. Mas o reconhecimento internacional dos azeites do Alentejo não é de agora. Já na época do romanos gozava de grade reputação, como se pode verificar nos Escritos de Estrabão referentes à exportação para Roma do “magnífico azeite” proveniente de Portugal.

Azeite no Alentejo, Portugal. Quinta de São Vicente.

Um dos exemplos máximos da modernização dos lagares alentejanos fica ali bem perto, na Herdade do Marmelo. Inaugurado em 2010, o Lagar Oliveira da Serra elevou ao máximo a fasquia da modernidade. O edifício, de autoria do arquiteto Bak Gordon, merece visita por si só. O percurso guiado começa no lagar, onde, através de um corredor central com paredes de vidro se pode observar as diferentes áreas de produção. Em seguida, o visitante é convidado a provar alguns dos melhores néctares da casa, com os rótulos Vintage, Lagar do Marmelo, Ouro e Primeira Colheita. A vista continua fora deportas, ao longo de um percurso de dois quilómetros, em que o visitante tem acesso a tudo. Ao todo são setecentos hectares de olival só nesta herdade, com as árvores plantadas no sentido norte-sul para um melhor aproveitamento da luz solar e sistema computadorizado de rega por telemetria.

A gastronomia alentejana também marca relação milenar da região com o azeite. A tradicional açorda é um dos símbolos máximos, um prato com tanto de simples como de complexo no modo com interliga ingredientes tão banais com o alho, coentros, pão e, claro, o azeite. No restaurante São Pedro, em Portel, é a rainha da casa. Na ementa constam sete variedades: de alho (com bacalhau e ovo), de cação (com ovo), de beldroegas (bacalhau, queijo e ovo), de tomate (com carne frita), de espinafres (bacalhau, queijo fresco e ovo), de salsa e cebola com silarcas, e de pescada, camarão e amêijoa.

Azeite no Alentejo, Portugal. Herdade do Marmelo, Lagar Oliveira da Serra.

A etapa seguinte é Moura, onde a cultura do olival se confundem com a própria história da cidade. É aí que está instalado o Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo, que inclui loja e um espaço museológico. Mediante marcação, o visitante pode também aprender a fazer provas. Henrique Herculano, diretor técnico, toma o leme: “Os parâmetros principais são o frutado, o amargo e o picante. Mas depois também conta muito com a harmonia e a persistência dos sabores, tal como o vinho.” Mais: “O azeite deve ser provado a 28 graus, num copo com vidro escuro, tapado com vidro de relógio, pois o contato com o ar adultera-o rapidamente. Destampa-se e inspira-se duas vezes, provando em seguida, de modo a envolver toda a boca. Depois, deve inspirar-se um pouco de ar pela boca, fazendo-se sair pelo nariz, para ativar as sensações retronasais.”

Para conhecer verdadeiramente o azeite da região, não basta aprender a prová-lo, é necessário também compreender a sua importância nesta parcela do Alentejo. E um dos melhores lugares par o fazer é o Lagar de Varas de Fojo, em Moura, com uma prensa do século XIX transformada pelo município em espaço de memória. A mó era movida a força animal, por dois burros que se revezavam ao longo da 24 horas do dia. “Era um trabalho duro e sujo, muito mal pago”, descreve a historiadora Marisa Bacalhau. “Durava meses e ocupava três homens a tempo inteiro” Durante esse período, os lagareiros quase não saíam deste espaço, aí dormindo e fazendo as suas refeições. Assim nasceu a tradição da tiborna, o pão torrado com azeite e sal.

Azeite no Alentejo, Portel, Moura e Lagar Varas do Fojo.

Diante do museu, fica o Parque Público Miguel Hernández, onde se pode apreciar diversas oliveiras centenárias. Em Moura é praticamente impossível escapar as coisas do azeite. E muito menos à hora da refeição: uma boa opção é jantar no “O trilho”, situado num antigo armazém de azeite onde poderá provar o tradicional caldinho de espinafres, com bacalhau, ovo escalfado e queijo fresco, feito com o afamado ouro líquido mourense, que de tão bom originou a expressão “tão fino como o azeite de Moura”. Para dormir, uma boa opção é a Horta de Torrejais, uma idílica pousada de charme localizada a poucos quilómetros da cidade, cercada por mil oliveiras centenárias que, para além de darem sombra à piscina e embelezarem a paisagem, servem para o proprietário Luís Infante Ferreira produzir azeite biológico, sob o selo da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos.

A despedida deste Alentejo de extensos olivais, mais uma vez, à mesa. Agora no Sem-Fim na aldeia do Telheiro. A escolha não é inocente: este restaurante, instalado num antigo lagar, é o exemplo máximo de como a modernidade pode ser fiel à tradição. Além das refeições, em que se destacam os pratos feitos com azeite, como o polvo salteado com batatinha nova e salada de couve ou bacalhau alhado, frito a baixa temperatura em azeite virgem extra. A memória do edifício está também presente nas visitas guiadas ao lagar, nas provas do precioso néctar ou na publicação de um livro de receitas.

Alentejo azeite em Moura.

Como se não bastasse, o Sem-Fim fica junto a um dos locais mais emblemáticos da milenar história olivícola do Alentejo, onde a Associação de Defesa dos Interesses de Monsaraz, em parceria com a Cooperativa Agrícola de Reguengos, implementou uma série de percursos pedestres ao longo  de diversos sítios arqueológicos, como as Antas do Olival da Pega ou o Menir da Bulhoa, situados junto a oliveiras centenárias. “Estas árvores são um património tão importante como os monumentos”, defende Jorge Cruz da ADMIN. Um dos conjuntos mais importantes está situado no Caminho Real da estrada da Amendoeira, que ligava Vila Viçosa à Herdade de Roncão D´El Rei, onde o rei D.Carlos caçava. “Algumas destas oliveiras são anteriores à construção do castelo de Monsaraz”, saliente Jorge Cruz. “Já assistiram a muitas mudanças e por cá vão continuar.” Por muitos séculos, esperamos.

O ROTEIRO

Rota dos Azeites: Alentejo

Rota dos Azeites: Alentejo

Distância percorrida: 170km

A: Quinta de São Vicente

B: Lagar do Marmelo – Oliveira da Serra (38.087778,-8.174444)

C: Restaurante São Pedro (Portel)

D: Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo (Moura)

E: Restaurante Sem-Fim (Telheiro)

 

HOSPEDAGEM

Horta de Torrejais: www.hortadetorrejais.com

 

RESTAURANTES

São Pedro: Largo 5 de Outubro 6A, Portel | +351 266611520

Sem-fim: www.sem-fim.com

O Trilho: www.otrilho.com

 

VISITAS

Lagar de Varas do Fojo: www.cm-moura.pt

Quinta de São Vicente: www.passanha.eu

Lagar do Marmelo (Oliveira da Serra): www.oliveiradaserra.pt

Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo: www.azeitesdoalentejo.com

 

VINHOS E AZEITES (Outras visitas na região):

Herdade da Malhadinha Nova: http://www.malhadinhanova.pt

Herdade do Esporão: http://www.esporao.com

 

Com este breve texto esperamos ter contribuído no planejamento de sua viagem a Portugal!

Para maiores informações e esclarecimentos, entre em contacto conosco através do email info@soulportugal.com, que teremos todo o prazer em ajudá-lo!

Boa viagem!

 


One thought on “Rota dos Azeites: Alentejo, uma cultura milenar

  • Reply
    Aparecida de Barros

    Busquei informaçao ,mais nada consegui,.Gostaria de saber mais sobre a historia do azeite e do vinho produzido por D. Emilia Conde em tempos remotos.Decáda de1920. Segundo informação aqui no Brasil, ela D. Emilia era grande Produtora de azeite e vinho. Chegava ate exportar..Sua filha D.Herminia Conde, mencionava com muito orgulho a atividade de sua mae.Fatos comprovados por fotografias. De qualquer forma ,muito obrigada pelo texto relevante. atenciosamente, Aparecida de Barros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *