Navegar pelo Douro 1


Quase meio milhão de pessoas cruzam anualmente o Douro. A navegação turística tem ali ganho adeptos e visibilidade mediática, devido aos grandes barcos. Mas existem outras formas de sulcar as suas águas. A uma escala mais pequena, mais perto das margens, com mais exclusividade.

“Vê só aquele troco!”, “Olha que coisa incrível”, “E bonito isso aí!”, “Puxa, que beleza!”. As exclamações com sotaque brasileiro sucedem-se a medida que o nível da água vai enchendo a eclusa da Barragem de Bagaúste, entre as margens do conselho de Lamego e de Peso da Régua, na sub-região do Cima Corgo. O grupo de uma vintena de turistas, todos familiares e amigos, originários de Curitiba, expressa de forma apaixonada a surpresa pela imponência cenografia em que se vê envolvido. “Pela primeira vez estou subindo na vida”, graceja a mais jovem do grupo. Poucos minutos após embarcarem no cais de Peso da Régua, em um barco Rabelo motorizado batizado de Encantos do Douro, são tomados pelo espanto e por aquele frémito feliz de quem sabe estar a gozar um pequeno prazer mundano. O percurso fluvial até a vila do Pinhão, de cerca de uma vintena de quilómetros, dura um pouco mais do que um par de horas. O suficiente para conquistar os passageiros.

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O final da tarde de primavera, com temperatura e luminosidade estivais, concede ao passeio condições ideais para fazer sobressair o encanto natural a vista. É o encerrar em beleza de uma longa jornada. A embarcação da empresa Douro Acima partira de manhã do Porto, com um grupo de seis dezenas de turistas, quase todos franceses. Almoçaram a bordo e tiveram muitas horas para apreciar a subida parcimoniosa do curso fluvial, incluindo a transposição das eclusas de Crestuma-Lever e do Carrapatelo e a entrada na Região Demarcada do Douro, pela sub-região do Baixo Corgo, junto a Resende. Terminaram o percurso na Régua e foram revezados pelos brasileiros. Este percurso tem um custo de €60 por pessoa durante a semana e de €85 ao fim de semana). Como eles, há cada vez mais gente a procurar os encantos da região vinhateira cuja paisagem é Património da Humanidade. O Douro está na moda. Provam-no os 450 mil passageiros que o navegaram em 2012, segundo dados do Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos.

FUGIR DA MASSIFICACÃO

São números apreciáveis para uma área que até pouco tempo estava adormecida no que se refere a aproveitamento turístico. À crescente visibilidade do Douro, resultante tanto de seu maior reconhecimento e dos prémios ganhos pelos vinhos ali produzidos, como pela abertura das portas de muitas quintas aos visitantes e de sucessivos novos investimentos em unidades hoteleiras, junta-se o fenómeno Douro Azul. A companhia do empresário Mário Ferreira tem feito incidir as atenções mediáticas sobre a região, resultado da atitude “mais e maior”. Os seus luxuosos barcos-hotel de grandes dimensões têm-se constituído como grande chamariz para o turismo fluvial Duriense e estão vocacionados, sobretudo, para atrair visitantes com grande poder de compra. Existe, porém, outras empresas do género e com frotas e ofertas bem diversas. E, quase com certeza, mais interessantes, principalmente se a idéia for conhecer o vale vinhateiro o mais próximo possível, sem a sensação de massificação. É possível fazê-lo tanto a subir, como a descer.

Quando se desliza pelas águas calmas do rio, ladeadas pelos socalcos de vinhas trabalhado pelos esforço de gerações, percebe-se um encanto tantas vezes olvidado. Para muitos é uma autêntica revelação, como para maioria dos brasileiros que subiram ao Pinhão. “Não imaginava isso assim. É mais bonito e organizado do que esperava” reconhece Daniel Neves, dentista de 40 anos, que pela primeira vez visita Portugal, sobre o qual admite ser escassamente informado. Daniel bebe vinho, mas diz-se pouco conhecedor. Sentado ao seu lado está Oderci Bega, advogado de 50 anos, que se reclama apreciador atento e leitor de revistas de especialidade. Todos são parte da mesma turma de amigos paranaenses, que todos os anos passeia em conjunto. A vinda ao Douro deve-se a insistência de Paulo Lugli, 50 anos, casado com uma descendente de portugueses e repetente na visita à região. “Esse é o meu país predileto” garante em pé junto a proa do Rabelo. “Infelizmente, o brasileiro não sabe muito sobre esta região, apenas conhece o vinho do Porto” acrescenta, antes de nova jura de amor ao país.

O FASCÍNIO DO RIO

Ao lado, a amiga Rosana Bega, esposa de Oderci, também se assume como uma fã sem reservas deste recanto europeu. Já antes havia estado por cá, também com Paulo Lugli, mas apenas pelo sul. Agora, rende-se aos encantos setentrionais de um território “maravilhoso, onde as pessoas são muito hospitaleiras”. Também para ela, o Douro está a ser uma revelação. Quase como que em jeito de desculpa, diz “O brasileiro, quando vem à Europa, vai diretamente para aqueles destinos mais óbvios, como Paris, Londres, Roma ou Barcelona”. Ao chegar ao Pinhão, de tão incondicionalmente rendida, confessará o desejo de regressar brevemente. Outros elementos do grupo dirão o mesmo, que sim, é mesmo uma viagem a repetir. Este género de cruzeiros de um dia tem Maio, Setembro e Outubro como meses mais concorridos. Já nos meses entre Novembro a Fevereiro, época das chuvas, geralmente a forte corrente implica na impossibilidade de transpor as eclusas.

Algo que para António Silva, 68 anos, o comandante deste Rabelo, construído em Vila do Conde de acordo com os modelos originais das tradicionais embarcações durienses, faz parte da rotina. Nascido na Afurada, aldeia de pescadores na foz desta estrada fluvial, em Gaia, e com vida feita a navegar, diz lembrar-se de um tempo em que o “rio já teve segredos”. Mas os 16 anos ao leme destas embarcações turísticas, além das memórias, dão-lhe tranquilidade. “Agora, é a coisa mais pacífica que há”, diz, sentado na cadeira do comando, deixando atrás de si, a jusante, uma rasto dourado sobre as águas banhadas pelo sol poente. Mas é sempre preciso atenção, pois o tráfego aumentou. “Nos últimos anos, houve um aumento enorme da circulação. Quando vim para o rio, havia seis barcos de turismo a circular, agora são 47”, salienta.

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PODER ESCOLHER

Uma realidade evidente até para os que não embarcam. Basta estar de olhos no curso fluvial para notar o movimento. O tráfego é tão regular que as estatísticas do IPTM distinguem entre três tipos de cruzeiros no Douro: os superiores a um dia em embarcações hotel; os de um dia geralmente em barcos rabelo; e os que decorrem na mesma albufeira “com duração variável, de meia e uma hora, e que se concentram nas zonas Porto/Gaia, Entre-os-Rios, Peso da Régua, Pinhão, Foz do Sabor e Pocinho”. A Douro Acima, dona do Encantos do Douro e em atividade desde 1997, tem uma frota de seis rabelos. Tanto organiza estes percursos mais longos, que podem ligar Porto à Barca d´Alva, no Douro Superior (praticamente atravessando toda a região duriense), como faz o “cruzeiro das seis pontes” que consiste em circular sob as pontes que ligam as margens próximo à foz do rio Douro em apenas 50 minutos. O mínimo exigido para subir o rio são 20 pessoas e podem ser organizadas visitas às quintas a beira rio durante o percurso. A bordo é servido almoço (vitela a lavrador, strognoff de perú ou caldeirada de bacalhau), acompanhado por vinho tinto e branco da Cooperativa de Freixo do Numão e verde branco da Quinta da Lixa.

Num barco com as dimensões do Encantos do Douro, com capacidade para 120 pessoas, almoça-se e lancha-se à vontade.

Mas também pode fazê-lo num veleiro, como o Libertu´s, garante o seu proprietário, António Pinto. Em 2009 ele pegou na sua embarcação de classe cruzeiro-regata, de 34 pés, que estava atracada em Póvoa do Varzim, e trouxe-a até o coração do vale vinhateiro. Queria fazer algo que aliasse a sua paixão “pelos barcos, pela vela e pelo Douro”. Desejava mudar de vida e, em simultâneo, oferecer às pessoas a possibilidade de “usufruírem de um veleiro num cenário idílico”. A embarcação, que pode acolher até uma dúzia de pessoas, está junto ao Restaurante DOC, do chef Rui Paula, na Folgosa do Douro, em Armamar. A partir daquele ponto, situado na margem sul, pode vogar livremente no trecho entre o embalse de Bagaúste e o Pinhão, durante todo o ano, pois não lhe é possível transpor as barragens. Funciona em regime de aluguel exclusivo, de no mínimo uma hora (€90 para um casal e a partir de €25 para grupos de seis pessoas) até um fim de semana.

A presença de um veleiro naquelas águas é algo não usual. António Pinto sabe, por isso, que o simples deslizar do Libertu´s funciona como um chamariz para a atividade da empresa, a Douro à vela. “O Douro requer silêncio e não barulho, e um veleiro é a melhor forma de o conseguir. A idéia não é fazer muito rio, mas sim vivê-lo muito estando em contato permanente com a água e com as margens”, afirma garantindo que as pessoas podem andar à vontade dentro do veleiro (equipado com dois quartos e banheiro), estender-se a apanhar sol e mergulhar ao redor. Além dos almoços e jantares, outros atrativos do Libertu´s são os passeios ao por do sol, as festas de aniversário, os piqueniques ou as pernoites. Mas o melhor mesmo, dizemos nós, é poder assumir o papel de skipper. Presenças obrigatórias a bordo, e sempre disponíveis para os passageiros, são o Vinho do Porto e o Moscatel. A Douro à Vela tem acordos com várias quintas para a realização de roteiros paisagísticos e culturais, incluindo a prova de vinhos.

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Com este breve texto esperamos ter contribuído para o planejamento de sua viagem a Portugal!

Para maiores informações e esclarecimentos, entre em contato conosco através do email info@soulportugal.com, que teremos todo o prazer em ajudá-lo!

Boa viagem!

 


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